Não falta água em Jundiaí

Publicado originalmente no Portal NAMU

A fábula da formiga trabalhadora e da cigarra preguiçosa se realizou na vida real. Longe da história contada às crianças, o caso do abastecimento de água de Jundiaí, município a 58 quilômetros da capital paulista, mostrou que é possível ter água de qualidade sem apelar para medidas caras e complicadas, entre elas, reuso, multas, rodízio e redução de pressão. Essa situação opõe-se à da capital paulista, onde o risco iminente de colapso dos sistemas de abastecimento Cantareira e Alto Tietê é motivo de preocupação do setor produtivo e da população.

Desde a década de 1970, a DAE, empresa responsável pelo abastecimento da cidade, fez inúmeros investimentos para que não faltasse água na região. Foram feitas reversões de rios, como é o caso do Atibaia, e seguidas ampliações das represas.

Atualmente, o município possuiu duas represas: a de Acumulação, localizada no entorno do Parque da Cidade, e a de Adução, primeiro reservatório construído. Em 1988, as represas, que ficam ao longo da rodovia João Cereser, atingiram o limite de 5,5 bilhões de litros de água. Na década de 1990, esse valor foi ampliado. Hoje, a barragem tem 15 metros de altura para acumular os mais de 8 bilhões de litros de água.

Em janeiro de 2015, no auge da crise hídrica que a região metropolitana de São Paulo enfrenta, as represas de Jundiaí atingiram 99% de sua capacidade. Estão, portanto, cheias até a boca. Apesar de esse cenário tornar muito improvável a falta de água na cidade, a DAE segue reforçando campanhas para economizar água.

Jundiaí, portanto, torna evidente que a situação dos recursos hídricos em São Paulo poderia ser outra. Para isso bastaria que os investimentos necessários tivessem sido feitos. Quando a empresa responsável pela água adota políticas corretas, como reflorestamento de regiões degradadas, proteção de áreas mananciais e constantes campanhas para incentivar economia de água, os recursos hírdricos não costumam faltar.

A experiência de Jundiaí mostra que a visão em longo prazo no saneamento é muito importante.

Nos casos no quais os investimentos não são feitos, quem mais sofre é a população. Em Itu, onde a questão da falta de água tomou proporções assustadoras, no último dia 2, dia do aniversário da cidade, os moradores saíram às ruas para protestar contra a falta de água. Há um ano, ou seja, desde fevereiro de 2014, Itu enfrenta racionamento. Quando a água chega é com cheiro forte em razão do longo período de torneiras secas.

O trabalho para não sofrer com a falta d´água deve ser contínuo. Em Jundiaí, um estudo feito durante oito meses em 2014, a prefeitura identificou 700 áreas com falta de mata ciliar. De acordo com o biólogo Martim Ribeiro, há 225 nascentes ainda em risco, inclusive as que fornecem água para o Jundiaí-Mirim, maior rio do município e principal fonte da cidade.

O Portal NAMU entrevistou com exclusividade o presidente da DAE, Jamil Yatim, que explicou como a cidade conseguiu implantar um projeto eficiente de infraestrutura de fornecimento de água tratada e coleta de esgoto:

Portal NAMU: Jundiaí foi afetada pela falta de água?

Jamil Yatim: Até o momento não.

Vocês fazem parte do Sistema Cantareira? Como ainda estão com tanta água?

O Rio Atibaia, que faz parte do Sistema Cantareira, é usado sempre que os mananciais de Jundiaí não atendem à necessidade. Isso é feito por uma reversão do Rio Atibaia até o Rio Jundiaí-Mirim.

Como funciona o sistema de abastecimento de Jundiaí?

Temos dois mananciais principais: o Rio Jundiaí-Mirim e o Ermida, que abastecem as estações de tratamento Anhangabaú e Eloy Chaves.

O que motivou os investimentos em infraestrutura de tratamento de água e esgoto no município?

O atendimento às necessidades da população relativas ao saneamento básico.

Como são feitas as ações de recuperação ambiental?

A DAE Jundiaí desenvolveu em 2013 um programa de cadastramento dos proprietários ribeirinhos da Bacia do Rio Jundiaí-Mirim para identificar pontos degradados em áreas de proteção permanente (APP) e nascentes da região.

A equipe percorreu 350 propriedades às margens do Rio Jundiaí-Mirim e identificou alguns problemas, como ausência de mata ciliar, construções irregulares, assoreamento, excesso de lixo e danos no entorno das nascentes. Os projetos de recuperação, conservação e preservação de mananciais são executados com base nos dados coletados.

Qual é o segredo para por em prática esse tipo de política hídrica?

Políticas hídricas dão resultados de ações em longo prazo e o município de Jundiaí sempre se preocupou com essa questão. O primeiro reservatório de distribuição foi inaugurado em 1899. A primeira represa do município é de 1953, quando ocorreu a construção de um pequeno reservatório no bairro do Horto Florestal para captar água do Rio Jundiaí-Mirim.

Na década de 1970, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) autorizou a reversão do Rio Atibaia, afluente do Rio Piracicaba. Desde então, a água do Atibaia é bombeada para o leito do Rio Jundiaí-Mirim por uma linha de abastecimento com diâmetro de 700 mm e vazão de 700 litros por segundo (l/s).

Na década de 1980, fez-se necessário aumentar essa quantidade para 1.200 l/s e, consequentemente, viabilizar a construção de uma nova estação elevatória e outra linha transporte (recalque) paralela à existente com 1.200 mm de diâmetro. Captada no município vizinho de Itatiba, essa água tem reforçado as vazões do Rio Jundiaí-Mirim nos períodos de estiagem.

De que forma a experiência positiva de Jundiaí pode ajudar a reverter o grave panorama de gestão de águas no Brasil?

A experiência de Jundiaí mostra que a visão em longo prazo no saneamento é muito importante. É necessário trabalhar também com projetos que considerem o crescimento populacional do município e estejam atentos às mudanças tecnológicas, técnicas de reuso, medição, captação e tratamento de água.

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