O impacto da falta de saneamento no aumento dos casos de dengue no Brasil

Mosquito da dengue (Aedes aegypti)

Publicado originalmente no Portal NAMU

Quando pensamos em dengue, a primeira imagem que nos vem à cabeça é a de um pneu jogado em um terreno baldio ou no pratinho de plantas que alguém esqueceu de tirar a água. O mesmo serve para o saneamento básico, cuja falta é associada imediatamente àquele sofá velho jogado dentro de um córrego bem poluído.

O que esses dois panoramas têm em comum é o fato de serem ambos favoráveis à proliferação de pragas urbanas, como o mosquito comum (Culex quinquefasciatus) e o temido mosquito da dengue (Aedes aegypti), esse último a grande preocupação de saúde pública nas cidades brasileiras atualmente.

Mesmo que não declarado oficialmente, o racionamento que atinge a região da Grande São Paulo tem levado muitas pessoas, especialmente aquelas que moram em regiões cujo atendimento feito pela Sabesp é precário, a armazenar água em cisternas ou caixas de água improvisadas. Diferentemente do mosquito doméstico, que prefere as águas poluídas, é nesse ambiente que o mosquito da dengue encontra condições propícias para se reproduzir.

Um fator importante descoberto pela equipe de pesquisadores liderada pelo biólogo Ricardo Vieira de Araujo e publicado no The Brazilian Journal of Infectious Diseases é a influência do calor na proliferação dos mosquitos. Entre 2010 e 2011, foram analisados dados referentes às condições socioeconômicas e geográficas dos pontos com maior incidência de casos de dengue. Os especialistas perceberam que a grande área construída da cidade cria “ilhas de calor” com uma média de 28 °C. Em testes de labóratório, Araujo percebeu que quando a temperatura atingia 32 °C, 90 % das larvas já se tornavam adultas. Com as altas temperaturas registradas nos últimos meses, não é difícil entender por que combater a dengue não é uma tarefa fácil.

Uma maneira de combate, portanto, seria arborizar a cidade, o que tornaria suas temperaturas mais baixas e também mais agradáveis.

Mosquito resistente

De acordo com dados da Fiocruz, os ovos do mosquito sobrevivem por até 450 dias sem água, ou seja, eles conseguem passar a estação seca e eclodir no período de chuvas. Além disso, há a possibilidade de as larvas já nascerem com o vírus da dengue caso a fêmea do mosquito já estiver contaminada na postura dos ovos, a chamada transmissão vertical.

Contudo, até isso está mudando. Um estudo liderado pela pesquisadora da Superintendência de Controle de Endemias de São Paulo (Sucen) Marylene Brito, evidenciou que o mosquito alterou seus hábitos de reprodução. Ao analisar amostras colhidas entre 2003 e 2005, Brito descobriu ovos do Aedes aegypti em águas contaminadas com resíduos de óleos, tintas e combustíveis. Além disso, a especialista constatou a presença de vetores em água salgada, o que aumenta o risco da epidemia nas regiões litorâneas, historicamente mal atendidas quando o assunto é saneamento.

A falta de investimento na infraestrutura de coleta de distribuição de água cobra um preço alto da sociedade. De acordo com dados do Instituto Trata Brasil, os afastamentos do trabalho provocados pela falta de saneamento custaram ao país R$ 1,1 bilhões em horas pagas e não trabalhadas em 2012. Em razão da maior fragilidade na saúde, as crianças são as que mais sofrem com essa situação. Em 2008, o IBGE constatou que 704 mil crianças perderam dias de aula por problemas ligados à falta de saneamento.

Não há dúvidas que as campanhas de conscientização são fundamentais para alertar a população e mostrar boas práticas para combater o mosquito. Contudo, se não houver uma ação planejada e de grande porte por parte do governo federal, estadual e municipal para resolver a questão do saneamento no Brasil, continuaremos lutando contra as causas e não contra os efeitos das doenças originadas pelo contato com águas contaminadas.

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