Saskia Sassen na Virada Sustentável

As cidades do século 20 têm se configurado como espaços de grande crescimento social, econômico e tecnológico. Essa dinâmica, apesar de fundamental para o desenvolvimento, é extremamente desigual com seus habitantes. Ao privilegiar aspectos mercantis e de especulação, os governos e agentes do capital colocam em segundo plano o cidadão, principal responsável por transformações capazes de resolver as questões ambientais dos grandes centros.

Para discutir os caminhos para a criação de cidades mais humanas e em harmonia com o meio ambiente, a socióloga holandesa Saskia Sassen e o secretário municipal de Cultura e também arquiteto Nabil Bonduki fizeram parte da abertura da Virada Sustentável 2015, evento de mobilização colaborativa para a sustentabilidade que ocorre entre os dias 27 e 31 de agosto em São Paulo.

Em seu discurso, a socióloga abordou como linha geral a relação entre a cidade e o meio ambiente, que ela define como biosfera. Sassen afirma que uma cidade é um “sistema multiescalar”, ou seja, apesar de suas caóticas estruturas, dentro delas existem dinâmicas e ecossistemas que interagem de forma às vezes até não intencionais. Tal funcionamento, no âmbito dos cidadãos, é semelhante às pequenas práticas que cada um faz na cidade. Quando uma pessoa investe em uma solução, como captação de água da chuva ou a instalação de telhados verdes, ela instiga outros a fazerem o mesmo. É o que ela chama de “paralelismo sistêmico” entre a cidade e a biosfera.

Uma cidade possui várias ecologias

Sassen é taxativa quando afirma que desperdiçamos muitos recursos da biosfera: “Algas e bactérias são os reis e rainhas desse domínio. O que podemos fazer com eles é extraordinário. Eles podem substituir muito do que fazemos com os sintéticos, pois os sintéticos são muitas vezes um problema. Sua produção é destrutiva e para criá-los temos de extrair muitos recursos da biosfera, pois uma cidade possui várias ecologias”.

Ao dizer que mais importante do que evitar a perda de recursos é entender quais são as capacidades que uma cidade pode oferecer, Sassen refere-se ao aproveitamento pleno dos recursos existentes. “Nós podemos multiplicar as descobertas feitas em laboratório por biólogos. Totalmente diferente, mas também incrivelmente importante são as ciências dos materiais, que é um assunto do momento. Há estudiosos que buscam materiais que possam substituir os sintéticos e serem utilizados dentro da biosfera”, afirma.

Evento: Virada Sustentável 2015. A socióloga holandesa Saskia Sassen fala ao microfone ao lado da mediadora da palestra ao lado do arquiteto Nabil Bonduki
Sassen e Bonduki aboradaram questões de sustentabilidade, ocupaçao do solo e mobilidade urbana

Nabil Bonduki, um dos responsáveis pela elaboração do último Plano Diretor da cidade de São Paulo, abordou dois aspecto essenciais para a vida na cidade: uso do espaço público e mobilidade urbana: “O espaço é uma questão importante. Temos uma luta por espaço em São Paulo, terra para habitação, áreas verdes, equipamentos sociais, atividades econômicas e imobiliárias. Ao mesmo tempo, nós temos uma infinidade de pedaços de terra abandonados e ociosos que por falta de políticas públicas de um lado e de ação do cidadão de outro, continuam ociosas e subutilizadas, afirma.

Tornar uma cidade novamente um espaço para pessoas significa mudar valores

Para ele, o crescimento desordenado da metrópole no início do século 20 e o privilégio ao transporte automotivo foram responsáveis pela atual dificuldade de deslocamento na cidade. O paradigma do automóvel rege até os dias atuais as políticas de mobilidade em São Paulo. Ao contrário de outras grandes metrópoles globais, que investem de forma pesada em transporte público e incentivam outros modais, como a bicicleta, a capital financeira do país injeta boa parte dos recursos na ampliação da malha viária. “Enquanto a cidade for apenas um local de fonte de lucro em que as empresas não pensarem de maneira mais ampla do seu papel e sua responsabilidade social e ambiental, nós vamos ter uma reprodução desse modelo insustentável”, sentencia Bonduki.

“Acredito que nós temos por um lado uma revolução tecnológica. Temos de fazer uma mudança na mentalidade das pessoas que moram e vivem nessa cidade porque a cidade felizmente não é só terrenos, prédios e ruas. A cidade é fundamentalmente resultado da ação dos cidadãos que estão ali. Então, essa mudança de mentalidade é importante. Isso significa renunciar a alguns valores. O automóvel virou um valor, uma cultura, que tenho chamado de anticultura do automóvel. Tornar uma cidade novamente um espaço para pessoas significa mudar valores”

A Virada Sustentável é um evento de articulação entre pessoas e entidades vinculadas a temas ligados à sustentabilidade. A edição de 2015 ocorre entre os dias 27 e 31 de agosto e oferecerá inúmeras atividades em toda a cidade, como oficinas debates e palestras. Entre no site e conheça mais a respeito: Virada Sustentável 2015.

Fotos: Ormuzd Alves / Flickr: Viresuacidade / CC BY SA 2.0

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