Carro elétrico sendo abastecido em um ponto de recarga na rua

Os veículos elétricos vieram para ficar

A primeira imagem que nos vem à cabeça quando falamos de carros elétricos é de um equipamento com tecnologia avançada e distante da persistente realidade dos veículos movidos a combustíveis fósseis. Nada mais incorreto, pois o uso de eletricidade para mover coisas por aí ocorre desde a metade do século 19. Se desviarmos o olhar do conceito de carro de passeio perceberemos que locomotivas, bondes, empilhadeiras e até mesmo submarinos nucleares utilizam energia elétrica como combustível.

Muitos cientistas e inventores se dedicaram a criar veículos movidos à eletricidade. Em 1827, o padre e inventor húngaro Ányos Jedlik criou um dínamo e o empregou para movimentar um veículo de pequeno porte. Em 1830, o ferreiro estadunidense Thomas Davenport adaptou com êxito baterias não recarregáveis à estrutura de um veículo simples construído por ele mesmo. Já em 1837, o inventor escocês Robert Davidson criou a primeira locomotiva elétrica da história, que era movida a baterias de zinco.

Retorno

Apesar da intensa pesquisa desenvolvida por empresas e cientistas amadores, os carros elétricos perderam espaço para a tecnologia de motor a explosão, elemento chave da crescente indústria automotiva entre a primeira metade do século 20. A queda do preço de combustíveis, como óleo diesel e gasolina, além da evolução dos sistemas de produção das linhas de montagem tiraram de cena os modelos elétricos, que à época não eram tão potentes nem desenvolviam grandes velocidades quanto os motores a explosão.

Os investimentos em pesquisa de carros elétricos foram retomados apenas em ambientes acadêmicos, como as iniciativas do Massachussetts Institute of Technology (MIT) e do Caltech, que na década de 1960 desenvolveram modelos experimentais com tecnologias de recuperação de energia e motores híbridos.

Na década de 1970, o aumento estratosférico dos preços do petróleo somado à instabilidade geopolítica do Oriente Médio causou a chama da “Crise do Petróleo”. Com a falta de combustível e as perspectivas cada vez mais preocupantes acerca da poluição causada pelos hidrocarbonetos, Estados Unidos, Japão e alguns países da Europa retomaram as pesquisas e desenvolvimento de veículos elétricos.

A montadora estadunidense General Motors em 1996 lançou o EV1, primeiro automóvel totalmente elétrico construído em sistema de linha de montagem. Em 1996 a japonesa Toyota lançou o Prius, modelo de tecnologia híbrida que utiliza tanto o motor à combustão quanto baterias recarregáveis para se locomover. Em 2006, a estadunidense Tesla Motors lançou o Tesla Roadster, primeiro veículo elétrico de alto desempenho.

Carro elétrico sendo abastecido em uma estação de carga
O avanço tecnológico permitirá que os carros sejam abastecidos em casa

Como funcionam os carros elétricos?

Há basicamente três meios de propulsão: a explosão, híbrida e elétrica. No primeiro caso, o motor é acionado por um combustível líquido (álcool, gasolina, diesel etc.) e transmite a potência por meio de sistemas mecânicos. É o modelo convencional. O problema é que, além de extremamente poluente, essa tecnologia perde muito energia no processo. Um automóvel desperdiça geralmente 62% de potencial energético, divididos em 33% na exaustão e 29% em troca de calor. Os 38% restantes de energia mecânica sofrem ainda perdas por fricção interna do motor, aerodinâmica e frenagem, o que resulta em um aproveitamento de apenas 21% do total.

Os carros híbridos possuem dois motores (um a explosão e outro elétrico que podem trabalhar em conjunto ou separadamente) e baterias recarregáveis. O sistema é controlado por um computador que seleciona o tipo de energia, aciona a motorização conforme a necessidade e comanda a recarga das baterias. Esses automóveis possuem ainda um sistema que recupera a energia cinética dos freios e alimenta as baterias.

Os carros elétricos por sua vez são movidos totalmente por baterias que são carregadas em pontos específicos. Os tipos mais comuns são de chumbo-ácido, níquel metal hidreto (NiMH) e íon-lítio (Li-ion). A primeira, mais conhecida e antiga, é a tecnologia empregada desde o século 19 para gerar energia nos sistemas elétricos dos carros convencionais. Foi utilizada na primeira geração de carros elétricos. Apesar de ser mais barata, de fácil fabricação e manutenção, é uma tecnologia superada em razão da pouca eficiência energética e da alta toxicidade do chumbo. As de níquel são utilizadas desde a década de 1980 e representam uma evolução por terem alto poder energético e serem construídas sem metais tóxicos, o que possibilita a reciclagem. A tecnologia de lítio-íon é a mais eficiente até o momento por reduzir de forma drástica a perda de energia quando não está em uso.

Desafios

A comercialização dos carros elétricos enfrenta atualmente uma série de desafios técnicos e econômicos. O primeiro é o fornecimento da energia. Mesmo em países onde essa tecnologia é mais difundida, como Noruega, Holanda, Dinamarca e Estados Unidos, os pontos de abastecimento ainda não cobrem toda a malha viária e estudam-se quais seriam os impactos que a recarga desses carros poderia causar na malha de fornecimento de energia elétrica. Outro aspecto é de desenvolvimento tecnológico. As baterias elétricas atuais fornecem apenas 3% de energia se comparadas com o potencial da gasolina.

Mudar o paradigma de uma tecnologia não significa trocar uma pela outra sem uma análise do panorama futuro. Apesar de recentes, os investimentos pesados em tecnologias mais limpas para automóveis ganha cada vez espaço nos planos de investimento inclusive de grandes empresas petrolíferas. Em uma época onde o aquecimento global já está alterando as dinâmicas sociais e econômicas em escala global, os carros elétricos mostram que vieram realmente para ficar.

Fotos:
Stefan Schweihofer / Pixabay: stux / CC0

Michael Movchin / Wikimedia Commons / CC BY 3.0

A socióloga holandesa Saskia Sassen na abertura da Virada Sustentável 2015.

Saskia Sassen na Virada Sustentável

As cidades do século 20 têm se configurado como espaços de grande crescimento social, econômico e tecnológico. Essa dinâmica, apesar de fundamental para o desenvolvimento, é extremamente desigual com seus habitantes. Ao privilegiar aspectos mercantis e de especulação, os governos e agentes do capital colocam em segundo plano o cidadão, principal responsável por transformações capazes de resolver as questões ambientais dos grandes centros.

Para discutir os caminhos para a criação de cidades mais humanas e em harmonia com o meio ambiente, a socióloga holandesa Saskia Sassen e o secretário municipal de Cultura e também arquiteto Nabil Bonduki fizeram parte da abertura da Virada Sustentável 2015, evento de mobilização colaborativa para a sustentabilidade que ocorre entre os dias 27 e 31 de agosto em São Paulo.

Em seu discurso, a socióloga abordou como linha geral a relação entre a cidade e o meio ambiente, que ela define como biosfera. Sassen afirma que uma cidade é um “sistema multiescalar”, ou seja, apesar de suas caóticas estruturas, dentro delas existem dinâmicas e ecossistemas que interagem de forma às vezes até não intencionais. Tal funcionamento, no âmbito dos cidadãos, é semelhante às pequenas práticas que cada um faz na cidade. Quando uma pessoa investe em uma solução, como captação de água da chuva ou a instalação de telhados verdes, ela instiga outros a fazerem o mesmo. É o que ela chama de “paralelismo sistêmico” entre a cidade e a biosfera.

Uma cidade possui várias ecologias

Sassen é taxativa quando afirma que desperdiçamos muitos recursos da biosfera: “Algas e bactérias são os reis e rainhas desse domínio. O que podemos fazer com eles é extraordinário. Eles podem substituir muito do que fazemos com os sintéticos, pois os sintéticos são muitas vezes um problema. Sua produção é destrutiva e para criá-los temos de extrair muitos recursos da biosfera, pois uma cidade possui várias ecologias”.

Ao dizer que mais importante do que evitar a perda de recursos é entender quais são as capacidades que uma cidade pode oferecer, Sassen refere-se ao aproveitamento pleno dos recursos existentes. “Nós podemos multiplicar as descobertas feitas em laboratório por biólogos. Totalmente diferente, mas também incrivelmente importante são as ciências dos materiais, que é um assunto do momento. Há estudiosos que buscam materiais que possam substituir os sintéticos e serem utilizados dentro da biosfera”, afirma.

Evento: Virada Sustentável 2015. A socióloga holandesa Saskia Sassen fala ao microfone ao lado da mediadora da palestra ao lado do arquiteto Nabil Bonduki
Sassen e Bonduki aboradaram questões de sustentabilidade, ocupaçao do solo e mobilidade urbana

Nabil Bonduki, um dos responsáveis pela elaboração do último Plano Diretor da cidade de São Paulo, abordou dois aspecto essenciais para a vida na cidade: uso do espaço público e mobilidade urbana: “O espaço é uma questão importante. Temos uma luta por espaço em São Paulo, terra para habitação, áreas verdes, equipamentos sociais, atividades econômicas e imobiliárias. Ao mesmo tempo, nós temos uma infinidade de pedaços de terra abandonados e ociosos que por falta de políticas públicas de um lado e de ação do cidadão de outro, continuam ociosas e subutilizadas, afirma.

Tornar uma cidade novamente um espaço para pessoas significa mudar valores

Para ele, o crescimento desordenado da metrópole no início do século 20 e o privilégio ao transporte automotivo foram responsáveis pela atual dificuldade de deslocamento na cidade. O paradigma do automóvel rege até os dias atuais as políticas de mobilidade em São Paulo. Ao contrário de outras grandes metrópoles globais, que investem de forma pesada em transporte público e incentivam outros modais, como a bicicleta, a capital financeira do país injeta boa parte dos recursos na ampliação da malha viária. “Enquanto a cidade for apenas um local de fonte de lucro em que as empresas não pensarem de maneira mais ampla do seu papel e sua responsabilidade social e ambiental, nós vamos ter uma reprodução desse modelo insustentável”, sentencia Bonduki.

“Acredito que nós temos por um lado uma revolução tecnológica. Temos de fazer uma mudança na mentalidade das pessoas que moram e vivem nessa cidade porque a cidade felizmente não é só terrenos, prédios e ruas. A cidade é fundamentalmente resultado da ação dos cidadãos que estão ali. Então, essa mudança de mentalidade é importante. Isso significa renunciar a alguns valores. O automóvel virou um valor, uma cultura, que tenho chamado de anticultura do automóvel. Tornar uma cidade novamente um espaço para pessoas significa mudar valores”

A Virada Sustentável é um evento de articulação entre pessoas e entidades vinculadas a temas ligados à sustentabilidade. A edição de 2015 ocorre entre os dias 27 e 31 de agosto e oferecerá inúmeras atividades em toda a cidade, como oficinas debates e palestras. Entre no site e conheça mais a respeito: Virada Sustentável 2015.

Fotos: Ormuzd Alves / Flickr: Viresuacidade / CC BY SA 2.0

União para salvar o Sistema Cantareira

Represa de Atibainha_Sistema_Cantareira
Formada por ambientalistas e mídias independentes, #OcupaCantareira discute soluções para a crise da água em SP
Fotos: Nathália Kamura

No mesmo dia em que cerca de 10 mil pessoas foram às ruas cobrar ações do governo estadual para resolver a crise da água em São Paulo, ONGs, coletivos e entidades de mídia independente estavam reunidos à beira da represa de Atibainha, em Nazaré Paulista. Eles querem buscar soluções imediatas e de longo prazo para a questão hídrica.

O #OcupaCantareira convocou ambientalistas, jornalistas de mídia independente e artistas, entre eles, o cantor e compositor Chico César, o letrista Carlos Rennó e os integrantes do grupo Metá Metá para discutir e mudar esse cenário. A ideia da ação é unir as propostas das entidades e gerar conteúdos que mostrem como a crise da água tem sido diminuída pelo governo e pela grande mídia. Chico César foi enfático ao relatar o panorama da crise: “Aqui em São Paulo, apesar de ser a terra da garoa, a má gestão hídrica gerou uma seca não apenas de água, mas de oportunidades”.

Chico César e Luiz de Campos

Luis de Campos (Rios e Ruas), Lizandra Mayra (Instituto IPÊ) e o cantor Chico César discutem soluções para a crise.

Para ilustrar de forma clara a situação, o #Ocupa Cantareira escolheu a paisagem desértica da represa de Atibainha, em Nazaré Paulista. Bem diferente de sua condição normal, ela era o retrato de como o descaso do governo pode colocar em risco o meio ambiente e o abastecimento de água. O reservatório, que faz parte do conjunto de mais quatro represas do sistema Cantareira, entre elas Jaguari, Cachoeira, Paiva Castro e Águas Claras, está com 22% de seu volume útil de água de acordo com os dados da Sabesp. Apesar disso, as imagens do solo rachado não condizem com as alegações da concessionária de que a situação está sob controle e que não há racionamento.

Sabesp

A crise da água também é uma crise de informação. Os dados fornecidos pela Sabesp e pelos órgãos do Governo de São Paulo geralmente são incompletos ou aé mesmo errados. Para Adriano Sampaio, do Existe água em SP, “a Sabesp tem de mostrar as informações para a população. O racionamento já era para estar acontecendo há mais de um ano, porque em fevereiro do ano passado a Cantareira ainda tinha água. Os dados fornecidos pela concessionária informam que há 10% de água. Já esgotamos quase dois reservatórios e hoje o nível está menor que 18%. É necessário maior clareza do poder público.

O músico Kiko Dinucci, do grupo Metá Metá, acredita que a Sabesp não é transparente em suas ações: “Não adianta falarem para a população economizar água quando eles mesmos desperdiçam em um sistema de distribuição totalmente ultrapassado. Como cidadão, eu gostaria de cobrar da Sabesp que ela seja honesta com a população.”

Enquanto o abastecimento de água por parte da Sabesp na cidade de São Paulo entra em colapso, um gigantesco potencial de rios e riachos ocultos que poderiam ajudar na crise é desperdiçado. O geógrafo Luiz de Campos, do coletivo Rios e Ruas, afirma que “a cidade de São Paulo possui mais de 300 cursos da água em total de 3.000 km que poderiam ser aproveitados para o abastecimento. Esses números são oficiais, mas acreditamos serem maiores por já termos encontrado mais rios e nascentes do que aqueles listados pela Prefeitura”.

Aqui em São Paulo, apesar de ser a terra da garoa, a má gestão hídrica gerou uma seca não apenas de água, mas de oportunidades.

Esse contraste só não é maior do que a visão de curto prazo para resolver o problema. O governo tem acenado com propostas caras e inviáveis para o momento atual. Uma delas é a construção de um sistema de transposição de água do Rio Paraíba do Sul, na região do Vale do Paraíba, em São Paulo, para a represa Atibainha. A proposta, que tenta reduzir o estresse hídrico da Grande São Paulo e está orçada em R$ 800 milhões, entrou de forma emergencial no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2) do governo federal. Outra ação para contornar a crise é a ampliação do sistema produtor de água São Lourenço, obra iniciada em abril de 2014 para retirar água da Represa Cachoeira do França, em Ibiúna, e enviá-la para a Região Metropolitana de São Paulo. A obra, orçada até o momento em R$ 2,2 bilhões é conduzida pelo modelo de parceria público-privada.

Segundo os ativistas, o problema dessas ações, que poderiam ser significativas para a infraestrutura de distribuição de água em longo prazo, é que elas não amenizam crise nesse momento mais crítico. São, na verdade, uma resposta burocrática e onerosa a um problema que se arrasta há anos em razão do mal planejamento e ação dos órgãos governamentais. Enquanto se discute apenas a falta de chuva e a redução do consumo por parte da população, temas importantes como o desmatamento e ocupação irregular nas regiões produtoras de águas, são vistos apenas como questões pontuais. De acordo com Mauro Rufato, engenheiro agrônomo do Instituto IPÊ, “o desmatamento está ligado diretamente com a falta de água. As matas têm uma espécie de efeito esponja, que é a retenção da água pelas raízes. A mata não produz mais água, ela, na verdade, a retém para períodos maiores, como os de seca.”

Em colaboração com Marina Fontanelli e Vanessa Cancian